Por mais que os departamentos de RH alardeiem vagas ao sol apenas para quem domina o idioma do tio Sam, passei por poucas situações em que não saber inglês tenha me enchido de raiva ou vergonha. Até já havia me acostumado ao fato de que eu e Tóbe nunca nos entenderíamos. Depois de nove anos de insistência, como explicar que eu continuasse sem entender por que raios I am, you are e he is se, afinal, o verbo é be? Tente dizer a um americano I be a god person e vai sentir na pele o que estou falando. Anybody be coisa nenhuma.
Nos últimos dez anos, venho me especializando em escapar ilesa de armadilhas cada vez mais ardilosas para pegar monolíngües. Numa revista de educação em que trabalhei, volta e meia eu precisava do depoimento de um professor da mais importante escola estrangeira da atualidade. Tinha de pedir autorização para três chefes diferentes, assinar cinco protocolos e fazer ligações internacionais sofisticadíssimas, mas esse era todo o trabalho que tinha, porque a escola fica no único outro país cujo idioma eu domino perfeitamente bem. Portugal.
Não vou me estender e falar das incontáveis vezes em que fiz cara de paisagem quando um editor me pedia para “pegar umas aspas” com determinado entrevistado e eu descobria, com antecipada auto-comiseração, que o e-mail do sujeito não tinha br no final.
Até hoje, a situação mais constrangedora que vivi foi ter sido editora da Folha sem saber um quarto idioma – porque inglês e espanhol, francamente, era o mínimo que esperavam de mim. Cada vez que encontrava um colega de redação disposto a me encaminhar um artigo, eu suava frio imaginando se o texto viria em esloveno, iídiche ou mandarim arcaico. Por sorte, pude contar com subeditores bonzinhos e pacientes o bastante para me ouvirem ler uma frase inteirinha do tal artigo, isso sem rir nem implorar para que eu parasse.
E, agora, dois acontecimentos abalam meu patriotismo e me fazem lamentar cada past continuos não conjugado. É que acabo de receber a décima primeira edição de “Bone”, a deliciosa saga das criaturinhas brancas, fruto da mente ensandecida de Jeff Smith. Eu deveria ficar feliz em saber que a Via Lettera está empenhada em traduzir todos os 55 livros da série, mas isso me faz lembrar da dinheirama que eu gastei importando o “Bone – On Edition”, na ingênua esperança de que seria capaz de ler meia dúzia de frases em inglês enfiadas em balõezinhos e acompanhadas de milhares de desenhos.
As coisas pioraram ainda mais quando, no mesmo dia, passei os olhos pela seção de quadrinhos de uma livraria e vi, meu deus, foi demais para um só dia, vi a obra completa de Calvin e Haroldo numa edição de luxo. Custa R$ 415, mas eu roubaria e me prostituiria para pagar o triplo ou quádruplo – se estivesse em português, é claro. Já não basta para minha auto-estima em frangalhos ter de esperar 2028 para ler o último “Bone” e, agora, mais essa.
Não sei o que eu fiz de errado, mas o Tóbe me odeia.
*Este texto foi originalmente publicado no blog Guindaste