Tenho de ir para o cavalheiro da direita, o que significa que vou ter como parceiro o pobre rapaz que sua em bicas. Gotículas de suor escorrem por todo o rosto e viram grandes rodelas encharcadas debaixo dos braços. E ainda estamos no começo da aula. Minha mão encosta no ombro dele e faz shack, shack. O coitado está se liquefazendo! Me concentro nos meus pés e agüento firme.
Trocou.
O próximo dançarino conta os passos mentalmente. Ou, pelo menos, pensa que é mentalmente, porque dá para ver os lábios dele se mexendo. Na primeira aula, achei que era um mantra. Depois, suspeitei que ele estivesse cantarolando a música, mas logo percebi que ele continuava sussurrando mesmo quando o som estava desligado. Perguntei o que ele estava fazendo e o rapaz riu. Meda.
Trocou.
Ah, os nazi-mórmons. Todos trocam de parceiros a cada música, menos o casalzinho-que-não-dança-com-ninguém. A professora diz “trocou” e eles olham com cara de paisagem. Ela nunca usa decotes ou saias curtas e ele deixa a camisa de mangas compridas fechada. Até o último botão. São loiros, muito brancos, de olhos claros e nunca conversam. Nem entre eles. Ainda não descobri o que vieram fazer numa escola de dança. Devem ser espiões.
Trocou.
O mundo não pára de me pregar peças e a última é que o melhor tangueiro da turma é um japonês alto, magro e com um cabelo negro e brilhante que vai até a cintura. Parece um Cavaleiro do Zodíaco. Ele traz numa mala seus sapatos especiais de dança, velhos e gastos. Devem ser realmente especiais, porque ele dança que é uma beleza. Me sinto argentina desde criancinha!
Trocou.
*Este texto foi originalmente publicado no blog Guindaste