- Quanto disso aqui eu preciso misturar com aquilo ali para rebocar um muro?
- Isso aí chama cimento.
- É, eu imaginei. E aquilo ali deve ser…
- Areia.
- Isso! E o que mais eu preciso para fazer um muro?
- De um pedreiro.
- Ah, você não entendeu. Eu mesma vou rebocar o muro. Não deve ser tão difícil assim, né?
O senhor ajeitou os óculos e me olhou com curiosidade de alto a baixo. Mas eu já estava fuçando em uma prateleira cheia de ferramentas.
- Acho que eu vou precisar de uma pá. Ai, que bonitinho, para quê serve isso?
Era uma pazinha mínima, algo que a Barbie usaria para cortar um bolo.
- Depende para o que a mocinha vai querer.
- Eu quero para rebocar um muro. Vou precisar de uma dessas para deixar bem lisinho, não vou?
- Vai, mas tem que ser uma colher bem maior, como essa que está à sua direita.
- Colher? Mas não é uma pá?
- Não. Isso é uma colher de pedreiro.
- Humm, aquela outra era mais simpática.
- Você vai fazer um muro de que tamanho?
- Moço, o muro já está feito, só vou deixá-lo liso. É por isso que quero saber quanto de cimento e de areia eu preciso colocar. Vai água também, não vai?
- Vai.
- E pedras, talvez?
- Não.
- Então o que mais eu vou precisar?
- De um pedreiro.
- Moço, veja bem, eu sei fazer arroz, sei fazer brigadeiro, sei fazer pingüins de papel machê. Você já fez um pingüim de papel machê?
- Não. Eu faço muros.
- Pois é, mas o muro já está feito. Só vou fazer a casquinha. É como colocar o granulado no brigadeiro. Você faz o brigadeiro, eu coloco o granulado, entende?
- Eu não faço brigadeiro.
- Eu sei, o senhor faz muros. Mas não deve ser nenhum segredo fazer concreto, né? Não é como uma receita de sobremesa que passa de pai para filho…
- Meu pai fazia muros.
- Jura?
- Meu avô também.
- Que coisa… Mas a proporção de cimento e areia deve ser que nem a do arroz, não? Uma de cimento para duas de areia? Se bem que fica faltando a água…
- Se colocar uma parte de cimento para duas de areia, não vai dar para trabalhar.
- Por que vai faltar a água?
- Não. Porque vai faltar o pedreiro.
*Este texto foi originalmente publicado no blog Guindaste